31/03/2021

Na Páscoa de Jesus, estamos junt@s Construindo Pontes!

 

Na Páscoa de Jesus, estamos junt@s Construindo Pontes!

 

Ir. Raquel de Fátima Colet, FC

 

Sobre as pontes...

 

Motivados/as pela Campanha da Fraternidade 2021, que tem como tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, ao longo do tempo quaresmal assumimos um itinerário de oração e reflexão, buscando rever nossas vidas e nossas práticas sob essa perspectiva dialógica. Para nos ajudar nessa tarefa, assumimos a expressão “Estamos Junt@s Construindo Pontes”, vínculo com a nossa proposta temática do ano como Rede Vicentina de Educação, alinhada ao entendimento de que dialogar é, sobremaneira, construir pontes.

 

Explorando a dimensão simbólica de muros e pontes, fomos tecendo leituras e releituras de nossas presenças e ações como construtoras - ou não - de pontes. Nesse movimento, olhamos para nossas práticas pedagógicas e pastorais, para nossas relações como indivíduos, famílias, comunidade educativa, sociedade. Olhamos para o mundo que nos cerca, dolorosamente marcado pelos efeitos da pandemia da COVID-19, como também por outros vírus, como a intolerância, discursos de ódio, negacionismos, polarizações que geram e sustentam confrontos e violências. Constatamos com tristeza que, muitas vezes, o nome de Deus tem sido instrumentalizado para acirrar disputas, exclusões e até mesmo violências.

 

Percebemos, assim, que construir pontes não é uma tarefa fácil, muito menos rápida e tranquila. Toda ponte nasce do desejo de aproximar alteridades e gerar encontros, pois não existem pontes de uma margem só. Pontes não são impostas; são propostas, desejadas. Por isso, percebemos que tão importante quanto construí-las, é acreditar no potencial de transformação que elas representam. Pontes possibilitam aproximar as diferenças que nos constituem e permite que elas sejam percorridas pelo afeto e pelo respeito. Como educadores/as, a missão de desconstruir muros e construir pontes passa pelas experiências singulares de nosso cotidiano.

 

Sobre a Páscoa...

 

As celebrações pascais, que tem seu ponto forte no Tríduo Pascal – uma única e significativa celebração que iniciamos na quinta-feira e concluímos no sábado – falam para nós da ponte de amor e salvação que Deus estabelece conosco pela Páscoa de Seu Filho. Revisitando a páscoa do povo de Israel, narrada no Antigo Testamento e que recorda a libertação desse povo da situação de escravidão do Egito, contemplamos a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus como a ponte definitiva e indestrutível do amor cuidador de Deus pela humanidade.

 

Fazer memória! Esse é o convite que a liturgia pascal nos faz. Em sentido teológico, “fazer memória” não significa somente a recordação de fatos passados, mas a atualização de seu sentido no presente, como experiência propulsora para o futuro. Por isso, quando recordamos os últimos acontecimentos da vida terrena de Jesus, nossa intenção não é listar dados históricos, mas reler nossa própria história atual sob as lentes do projeto de Deus que foi assumido com amor radical por Jesus.

 

Para nos conduzir nessa memória celebrativa da Páscoa de Jesus e da nossa páscoa cotidiana, queremos olhar para as celebrações deste tempo litúrgico a partir da relação com três pontes, que nos remetem à experiência essencial de cada momento celebrado.

 

O lava-pés e a ceia como pontes de Comunhão

 

O Tríduo Pascal se inicia com a celebração do lava-pés e a recordação da última ceia de Jesus com seus discípulos, que aconteceu às vésperas da Páscoa judaica. Comunhão e serviço são expressões fortes desse momento. Na cena do lava-pés narrada pelo evangelho de João (Jo 13,1-17), ao tirar o manto, tomar o jarro com água e lavar os pés dos discípulos – gesto que, na época, era feito pelos escravos e servos – Jesus indica a atitude cristã por excelência: o amor-serviço. Na ceia, a partilha do pão e vinho, comunicam a vida doada como alimento para a vida das pessoas e do mundo. Os gestos de Jesus de lavar os pés e compartilhar a mesa nos convidam a construir pontes de comunhão.

 

Ao olhar para nossa missão educativa, como Irmãs, educadores/as, estudantes, famílias, pensemos o que significa lavarmos os pés uns dos outros, umas das outras, de modo muito particular considerando as novas rotinas que temos vivido desde o início da pandemia, com os medos, incertezas, cansaços e lutos que nos acompanham. Ao depor o manto e inclinar-se para os discípulos a quem chama de amigos, Jesus descontrói os muros do poder e das hierarquias fundadas na dominação de uns sobre os outros, nos privilégios que desumanizam e excluem. Tirar o manto é reconhecer-se igual, servo, amigo, presente.

 

Quem sabe podemos olhar para o atual momento e listar os mantos simbólicos que nos dão uma falsa sensação de autoridade e dos quais somos convidados/as a nos despir: o manto da autossuficiência egoísta, das nossas pretensões de verdade, dos discursos moralistas e fundamentalistas, da desonestidade intelectual no uso de nosso conhecimento, dos negacionismos que colocam a vida de outras pessoas em risco.

 

Lavar os pés uns dos outros hoje pode ser o exercício da compaixão de se colocar no lugar da outra pessoa, daquele profissional de saúde que há meses não abraça a família porque a carga de atendimento nas unidades de saúde e o risco de contágio não permitem.... Pode ser cultivar a empatia pelo nosso/a colega docente ou pelo professor/as do/a nosso/a filho/a que está emocional e mentalmente exausto em conjugar atendimento remoto e presencial.... Pode ser atentar à situação dramática de famílias que perderam seus empregos e que não conseguem colocar comida na mesa de suas casas. Pode ser acolher nosso/a estudante criança, adolescente ou jovem para quem o distanciamento social está representando um isolamento emocional e relacional tremendo e doentio... Pode ser aquela dose de paciência extra com as manias de nossos/as companheiros/as, filhos/as, familiares, vizinhos... Pode ser reconhecermos, como cidadãos e sociedade, que é estupidez e perversidade achar que conseguiremos controlar e superar a pandemia sem o mínimo de contribuição de todos/as, o que exigirá alguns sacrifícios e renúncias de todos/as em vista do bem comum.

 

Lavar os pés dos irmãos e irmãs é inclinar-se reverente diante da dignidade da outra pessoa, que é diferente de nós em identidade e experiências, mas tão igual a nós em desejo de uma vida com sentido. Se o contrário do amor é a indiferença, lavar os pés uns dos outros é um ato de reconhecimento da existência do/a outro/a de quem somos irmãos e não juízes/as, e de que nossa vida é afetada pela presença dessa alteridade. Acomodadas nos jarros de nossas identidades em relação, a água que banha os pés das pessoas próximas é o frescor da nossa presença empática, respeitosa, justa.

 

Depois que lava os pés, Jesus reparte o pão e o vinho, partilha de alimentos presentes no cotidiano do povo. A ceia não é um banquete de iguarias exóticas e requintadas, mas pão nosso de cada dia, fruto da generosidade da terra e do trabalho das pessoas. Sacramentalmente, pão e vinho são seu corpo e sangue de Jesus. Na perspectiva eucarística, comungar não se resume à ingestão das espécies de pão e vinho como se isso tivesse um efeito mágico em quem o faz. Comungar Cristo significa assumir as atitudes de Jesus, suas opções fundamentais, seu projeto de vida até as últimas consequências. É reconhecer que nossa presença cristã no mundo precisa ser alimento de amor e serviço para a humanidade e a Criação, caso contrário, de cristã não tem nada. Como nos revela o Evangelho e comunicaram nossos Fundadores, é especialmente comungar com a vida daquelas pessoas cujas mesas carecem de pão – o pão material, do afeto, da atenção, da justiça social, do conhecimento, ... e todos os pães que alimentam a dignidade e a comunhão entre as pessoas.

 

“Dei-vos o exemplo para que, assim como eu vos fiz, façais também vós” (Jo 13,15). Assim Jesus concluiu o gesto do lava-pés, deixando-o como mandamento para aqueles/as que querem seguir seus passos. Prostrar-se diante da dignidade da vida e doar nossa presença como alimento, sabor e sustento: essa é ponte de comunhão a ser construída com acertos e recomeços, frustrações e aprendizados, empenho pessoal e ajuda mútua, no chão sagrado que pisamos todos os dias, que para nós se chama escola.

 

A Paixão de Jesus como ponte de Doação

 

A acolhida do sofrimento na cruz, que foi consequente ao projeto de amor, paz e justiça vivido e pregado por Jesus, nos testemunha as exigências do amor. A crucificação de Jesus precisa ser entendida no contexto da vida e missão do Filho de Deus. Isso nos ajuda a superar uma leitura rasa e fatalista que era o desejo de Deus que Jesus morresse numa cruz.

 

Em tempos pré-pandemia, a grande participação na celebração da Sexta-feira Santa indica a identificação do povo com o sofrimento. Na cruz de Jesus, as pessoas veem suas próprias cruzes, com pesos e tamanhos diferentes, mas todas igualmente doloridas.

 

Parece pura retórica falar de sofrimento diante dos quase três milhões de mortos pela COVID-19 no mundo, mais de trezentos mil somente em nosso país. Mas, não é possível celebrar a Páscoa de Jesus hoje sem percorrer a Via Crucis da pandemia, cujas estações assumem identificações próprias: Jesus continua sendo condenado à morte, chicoteado, ofendido, caído, crucificado no sofrimento das pessoas que esperam um leito de UTI ou ambulatorial; naqueles que enterram seus familiares sem terem a possibilidade de fazer a despedida e viverem o luto; pela enxurrada de notícias falsas que confundem e põem em risco a saúde e a vida da população.

 

Lembremos que Jesus foi condenado à morte pelo poder político e religioso da época. Muitas das pessoas que o aclamaram como rei na entrada triunfal em Jerusalém foram as mesmas que, dias depois, gritaram “crucifica-o”. Na cruz, Jesus foi desafiado a usar seu “poder” de Filho de Deus para livrar-se daquela situação e da vergonha que ela representava. “Desce daí se você é mesmo quem diz ser”. De outro lado, soa a covardia de Pilatos, que não quis tomar responsabilidade sobre a situação.

 

A CFE 2021 nos chama atenção para o perigo do orgulho religioso que instrumentaliza o nome de Deus para justificar atitudes intolerantes e ações violentas. A mística da cruz ainda é pouco cultivada em nós. Nós e nossas tendências de vingança, de revidar às situações com revanchismos, para o que convocamos o próprio Deus, para que Ele destrua os nossos inimigos e nos torne prósperos, também economicamente. Que tipo de espírito cristão estaria por trás de um desejo de prosperidade financeira diante de um cenário que cresce a fome e a miséria no mundo?

 

A cruz de Jesus nos ajuda a passar de uma compreensão de prosperidade dos bens para a prosperidade dos dons, que coloca em primeiro plano não as necessidades de consumo, mas a possibilidade da partilha. É por isso que podemos pensar na cruz de Jesus como ponte de doação, à medida que nos fala da horizontalidade e verticalidade do ser cristão: deixar-se abraçar por Deus e abrir os braços na direção das pessoas próximas.

 

A Ressurreição como ponte de Esperança

 

O relato bíblico apresenta o encontro com o Ressuscitado em um jardim. Foi numa manhã de domingo e Jesus foi até confundido com o jardineiro. Essa referência poética nos ajuda a olhar para a Ressurreição de Jesus sob as lentes da esperança. Aliás, talvez esse seja nosso grande anseio como humanidade nesse momento: diante de tantos desafios, perdas, medos e incertezas, cultivarmos um coração confiante e esperançoso.

 

Ter esperança, porém, não é tarefa fácil. Por isso, é também uma virtude, um dom generoso da graça de Deus. A autêntica esperança não é desconexa da realidade, alienada. É como cultivar um jardim: o empenho de quem cultiva precisa estar aberto à novidade imprevisível da natureza. Em um momento a planta cresce viçosa; de repente, uma intempérie ou uma praga pode colocar tudo a perder. O que mantém, então, um jardineiro de pé? Sua paixão pelas flores e a fé em cada semente e em cada muda depositada na terra. O jardineiro se deslumbra com a beleza das flores porque antes foi capaz de antever beleza e sentido no crescimento silencioso e vulnerável do broto. Ao que nos parece, essa pode muito bem ser também uma metáfora oportuna para nossa missão educativa. Já dizia uma música popular: “há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”.

 

A ressurreição é ponte permanente de esperança. Lá, onde há três dias pairava a morte, uma pedra imensa e pesada, é rolada pela força da vida. Aquele, cuja morte violenta havia deixado um vácuo de tristeza e frustração naqueles e naquelas que o seguiam, volta à presença dos seus em um corpo ressuscitado.

 

Há de se suspeitar, contudo, que aqueles que aguardavam uma manifestação apoteótica da glória do Filho de Deus, tiveram igualmente suas expectativas frustradas por ela aparecer silenciosamente num jardim e, em primeiro momento, às mulheres. A lógica da esperança pode ser, muitas vezes, desconcertante para quem costuma se apegar a promessas de sucesso.

 

A esperança é isso: ali onde jaz o que parece ser fracasso e decepção, dali brota a possibilidade de uma vida nova, ressurreta. E isso não é magia; é confiança. Em suas aparições após a ressurreição, o principal convite de Jesus é “não tenham medo”, o que nos leva a supor que o medo estava presente na realidade da comunidade dos discípulos e discípulas. Como a comunidade apostólica, o medo e a angústia também têm sido companhias não convidadas que têm se aproximado de nós. Dentro as muitas sensações vividas nos últimos tempos está a consciência crescente de nossa fragilidade.

 

Santo Irineu de Lion, bispo e teólogo do segundo século, tem uma frase bastante conhecida que diz: “o que não é assumido não é redimido”. Assim pensamos em relação a Cristo que redime a condição humana porque a assume plenamente. Assim também podemos pensar em relação às situações da nossa humanidade que, embora redimida, permanece vulnerável. Acolhê-las, com lucidez e serenidade, é condição para transformá-las.

 

Construir pontes de esperança é esse exercício cotidiano de assumir a beleza e a vulnerabilidade de nossa humanidade em construção, com suas luzes e cruzes, convictos/as, porém, de que Ele vive e está entre nós todos os dias, até o fim dos tempos (cf. Mt 28, 20), e que cada novo amanhecer tem os traços daquela ponte de esperança tecida com contornos de eternidade naquele amanhecer do terceiro dia.

 

 

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