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06/03/2017

Narrativas femininas para o ano jubilar

NOS INTERVALOS DA PAUTA:

Narrativas femininas para uma história jubilar

 

Ir. Raquel de Fátima Colet, FC

Para inspirar nosso diálogo...

Jubileu é sempre ocasião propícia para resgatar a memória histórica. Essa oportunidade singular e festiva de visita às origens comporta, igualmente, uma perspectiva de futuro que se associa a um redimensionamento do hoje. Assim, passado, presente e futuro se encontram como notas escritas na pauta de uma mesma música; em escalas diferentes, mas uníssonas, integradas. Utilizamo-nos da metáfora musical para pensar as nuances deste dom e desta obra chamada Carisma Vicentino, cuja composição já iniciada e em plena execução, ainda não chegou a seu termo. Dela participamos não como meros/as expectadores/as, mas como artistas em potencial que se sentem visceralmente envolvidos e comprometidos com a peça que executam.

Pela dinamicidade da história, reconhecemos que o cenário, a orquestra, os instrumentos, a plateia, enfim, tudo que envolve a obra, não são estáticos. Se, pela fé assumimos que o Espírito é o maestro da história, somos levados/as a intuir que não é da natureza de Deus a cômoda inércia de uma repetição metódica e padronizada, mas é sempre possível e necessário novas interpretações, novos arranjos, agregação de outros instrumentos e interação com outras formas artísticas. Contudo, mais importante que esses elementos conjunturais, é a sensibilidade de artista que reconhece que a música não é sua propriedade, nem mérito, mas puro dom e gratuidade, e da qual ele/a é hermeneuta. Assim, ousamos pensar os carismas na Igreja como peças originais compostas por mulheres e homens que, em diferentes tempos e lugares, foram e são comunicadoras de uma mensagem que as transcende. Identificando-se com seu gênero, estilo, harmonia, letra, outras pessoas aprendem e apreendem as intuições fundamentais destes/as compositores/as da “primeira hora” e perpetuam na história com um toque inaudito, não os/as artistas, mas a originalidade e vitalidade de sua obra.

Neste sentido, a comemoração dos 400 anos do Carisma Vicentino, muito mais do que um olhar para uma pauta antiga como que sob uma vidraça protetora e defensiva de um museu, é oportunidade para um grande concerto aberto, para onde levamos a dedicação e a competência dos ensaios do cotidiano, e oferecemos à plateia do mundo o que temos de melhor: nossa música única e original, registrada na tríplice pauta do ontem, do hoje e do amanhã. E aplaudimos juntos/as, reverentes e agradecidos/as ao Compositor maior, na convicção de que somos simples intérpretes desta arte que nos transcende.

Longe de um relato de ufanismo, intentamos aqui afinar nossos ouvidos para algumas nuances da melodia de nosso carisma que, muitas vezes, consciente ou inconscientemente, ignoramos. Dispomo-nos, por exemplo, a perceber que uma peça não é formada contínuos acordes vibrantes e intensos, mas necessita das pausas e intervalos que os preparam, harmonizam e interligam. É nesta métrica que pensamos, por exemplo, a presença e participação feminina na origem e desenvolvimento do Carisma Vicentino. Presença tantas vezes ignorada ou minimizada, mas que foi e é paradigmática, fundamental.

Embora a referência à vida e obra de Vicente de Paulo sejam os registros mais expressivos desta pauta – ou, pelo menos, os mais conhecidos – resgatar o feminino não pretende ser um percurso paralelo, senão um mergulho profundo na essência do carisma, um modo de contemplá-lo sob um outro prisma. É, ao mesmo tempo, uma questão de justiça com tantas mulheres, nomeadas ou não, que por condições de contextos, épocas e seus pré-conceitos, foram – e, infelizmente, muitas vezes ainda o são – vistas como coadjuvantes ou figurantes da história. Dessa forma, uma narrativa feminina a partir dos intervalos e das pausas, possivelmente no ajude a entender ainda mais a dimensão de resistência, simplicidade e diaconia que constitui nossa identidade. Suscitamos aqui alguns olhares afim de que estes possam, posteriormente, suscitar outros.

 

Testemunhos que permanecem

A lista das muitas mulheres do ontem e do hoje do carisma certamente não cabe nas páginas deste ensaio. Contentamo-nos, contudo, em apresentar três referências que dimensionaram significativamente as intuições carismáticas de Vicente de Paulo. Obviamente, as citamos considerando seus respectivos contextos históricos, com suas ambiguidades e dinamismos, especialmente em relação à condição da mulher no cenário socioeclesial. Desse contexto próprio, extraímos matizes de suas presenças na obra vicentina.

Dos acontecimentos de Folleville e Châtillon (1617), basilares para as celebrações dos 400 anos, destacamos duas mulheres. Os antecedentes, os bastidores e os desdobramentos do notável “Sermão da Missão”, de 25 de janeiro, na pequena Folleville, não podem ser compreendidos sem a participação efetiva de Francisca Margarida (1580-1625), a Madame de Gondi. Contrapomos interpretações reducionistas - com as quais temos sido tantas vezes coniventes -  que se referem a ela unicamente como uma pessoa espiritualmente escrupulosa e afetivamente apegada a seu confessor, Vicente de Paulo[1]. Obviamente, é filha de seu tempo e sua vida cristã é influenciada por essas características epocais.  No entanto, olhamos para Francisca Margarida como uma mulher movida por um profundo e sincero sentimento religioso. Este impulsionava seu compromisso cristão de modo que, com um envolvimento decidido, utilizou de suas influências e de seus recursos para impulsionar as iniciativas de Pe. Vicente.  É mulher de sensibilidade ativa pois, ao mesmo tempo em que se comove com a pacificação de espírito daquele moribundo de Gannes, foi capaz de confrontar Pe. Vicente sobre a situação de tantos outros que padecem do abandono espiritual: “Quantas almas se perdem. Como remediar isso?”[2] Como nos testemunham os relatos históricos, não se tratou uma simples e passageira comoção, mas de uma disposição permanente de criar condições e instrumentos para que a dimensão da caridade vislumbrada por Vicente encontrasse concretude. Isto pode ser percebido no impulso e apoio à obra das missões e das caridades, que associou a pregação missionária à criação de Confrarias da Caridade, oriundas da experiência de Châtillon. Os territórios de sua família e as comunidades que neles residiam foram um vasto “laboratório da caridade” onde a obra vicentina criou corpo e se expandiu[3].

            No itinerário das Confrarias da Caridade, primeira fundação de Vicente de Paulo e originalmente feminina[4], recordamos aquele dia 20 de agosto de 1617, em Châtillon-les-Dombes quando “alguém”[5] procura Pe. Vicente enquanto este se paramentava para presidir a celebração eucarística e lhe faz conhecer a situação de uma família onde todos padeciam doentes, sem alguém que os pudesse assistir. Este relato que comoveu Vicente de Paulo e, igualmente, o levou a co-mover sua comunidade a empreender formas de intervir nesta situação, brotou da sensibilidade compassiva de uma de suas paroquianas, a Senhora de Chassaigne. Pouco sabemos a seu respeito, além de que, desde a chegada de Vicente àquela pequena paróquia, se envolveu efetivamente na vida daquela comunidade. Seu nome e o de mais oito mulheres estão registrados na ata da primeira Confraria da Caridade, estabelecida em Châtillon três dias após o ocorrido. Ao nome desta mulher, associamos o de tantas outras que, com o apoio de Vicente de Paulo, empreenderam uma verdadeira revolução da caridade na França do século XVII e que chegam até nossos dias na identidade e missão da Associação Internacional de Caridades (AIC).

            Por fim, nos percursos originários do carisma apontamos para a pessoa e atuação de Luísa de Marillac (1591-1660), a Mademoiselle Le Gras, ativa colaboradora das iniciativas de Vicente de Paulo a partir de 1625. A sintonia dessa cooperação nos é apresentada nas inúmeras cartas trocadas entre eles. Para a Companhia das Filhas da Caridade e as frentes de ação a ela vinculadas, o entendimento de seu carisma fundacional passa necessariamente pela disposição em perscrutar o pensamento, a espiritualidade e o dinamismo pastoral desta mulher. Nosso carisma é tão vicentino quanto marillacano. Recordamos sua história pessoal que conjuga fragilidades e superação, e que encontrou nas “idas e vindas” do serviço aos pobres a afinação entre fé e vida, a contemplação e ação. A animação e formação das Confrarias espalhadas pela França; a disposição de reunir em sua casa, orientar, acompanhar com materna maestria os passos as primeiras Filhas da Caridade; o zelo ativo e persistente pela natureza, identidade e finalidade desta obra que Deus vai escrevendo na história; a intuição providente de registrar as palavras e acontecimentos da vida da Companhia nascente – o que possibilitou chegar até nossos dias a riqueza literária de nossas origens; são alguns exemplos do protagonismo de Luísa na “gestação” de nosso carisma. A seu lado, estiveram tantas outras mulheres, cujo estilo de vida novidadeiro, associando secularidade e consagração, instigaram os modelos da época. Quem são essas, nem casadas, nem enclausuradas, que percorrem as ruas de Paris com pão, sopa, remédios, com o intuito único e sincero de servir a Jesus Cristo na pessoa dos pobres?  Quem são essas camponesas, sem dotes e sem posses, que desafiam os preconceitos de sua época e, de forma autodidata, aprendem a ler e escrever, e partilham sua instrução com tantas outras moças e meninas, sendo por isso criticadas por seus contemporâneos?

Por esses testemunhos nomeados e por tantos outros anônimos, o feminino não é paisagem da travessia percorrida pelo carisma, senão seu elemento fecundante. Luísa de Marillac, Francisca, as Damas da Caridade de tantos nomes e endereços, Margarida Naseau – a primeira Filha da Caridade -, Margarida Chetif, Bárbara Angiboust, Joana Lepintre, Ana Hardemont, Claúdia, Madalena, Cecília, Juliana, Catarina Labouré, Rosalie Rendu, Maria Ana, Odila, Josefina Nicoli, Elisabeth Ann Seton, Joana Thouret, Marta Wiecka, Margarida Rutan, Luiza Olsztynska, Natália, Leocádia, Suzanne Guillemin, Lindalva, e a lista continuaria ad infinitum. Mulheres de ontem e de hoje que, num profundo amor por Deus e pela humanidade, na doação cotidiana, no martírio, no compromisso com a causa do povo, mantiveram e mantém a intensidade de cada nota caridade afetiva e efetiva registrada e executada na pauta da missão vicentina. A música do carisma que o Espírito escreveu e escreve na pauta da história passa pela vida destas testemunhas, sem as quais a obra não é a mesma.

A título de conclusão... ou recomeço

            Fazer referência à dimensão feminina de nosso carisma neste ano jubilar instiga o duplo movimento de uma releitura ampliada de nossa história, indo além dos relatos convencionais, ao mesmo tempo em que provoca para um olhar atento para a realidade das mulheres de hoje. Do século XVII para cá, demos bons passos, em sua maioria plasmados na luta e na resistência; mas, ainda não o suficiente e, diríamos, ainda não o justo. Isso não somente no âmbito sociocultural, mas também eclesial. Não se trata aqui de fomentar um conflito entre gêneros, querendo afirmar a supremacia ou a relevância de um sobre outro; muito pelo contrário. Trata-se, unicamente, do urgente imperativo de mulheres e homens se colocarem juntos/as diante do espelho de sua condição de humanidade e, por essa experiência, reconhecerem mutuamente sua dignidade. Na perspectiva da fé cristã, isso ganha uma dimensão ainda maior. Como interpretamos nossa condição criatural como imagem e semelhança de Deus, e vocacionados/as por Ele para o bem, a caridade e o serviço? Em suma, como o imperativo do Evangelho ressoa em nós e através de nós? Estas questões provavelmente nos ajudem a rever o tendencioso dito de que “atrás de um grande homem tem sempre uma grande mulher” e entender que, na lógica do Reino, não há aqueles/as que estão à frente ou atrás, mas há irmãos/ãs que se dispõem a caminhar juntos/as, lado a lado, em comunhão, na convicção de que quem os/as precede, acompanha e justifica é o próprio Senhor.

Parece-nos que essa consciência não de concorrência, mas de comunhão, não nos pode deixar inertes às situações de violência física, simbólica e estrutural que mata e ameaça a vida de tantas mulheres, de diferentes lugares, etnias, culturas, credos, como temos assistido na atualidade. Violência essa tantas vezes legitimada por elementos religiosos. Não seria essa uma das pobrezas de nosso tempo que precisa ser envolvida pelos braços de nossa caridade criativa? Podemos nós conformar-nos com o preconceito grosseiro, aberto ou velado, que muitas vezes se esconde sob a forma de elogios tendenciosos, de padrões de beleza e de comportamento, que mais falam de uma idealização estratégica e limitada do feminino, do que de sua identidade? Na obra do carisma, inspiração da Divina Ruah, como temos contemplado o ser e a presença das mulheres? Permanecemos com perguntas; elas nos recordam que ainda estamos a caminho, e que só tem sentido se chegarmos juntos/as.

 


[1] Cf. COSTE, P. Carta nº 7, de setembro de 1617. Da Senhora de Gondi a São Vicente. Tomo I. p. 91-92 (edição em espanhol).

[2] COSTE, P. Tomo I. apud. CASTRO, J. P. 1942. p. 56.

[3] Discorrendo sobre a expansão das Confrarias da Caridade, em tom elogioso, destaca Castro: “[...] A senhora de Gondi era a primeira a dar seu nome; e o seu exemplo atraia as outras senhoras. Não se contentava em ser a alma das Confrarias já estabelecidas; ia para a aldeia seguinte antes dos missionários, visitava os pobres, excitava o povo a aproveitar a missão. A todos causava admiração e comovia às lágrimas o exemplo dado pela nobre senhora, tão moça, rica e delicada de saúde, dedicando-se com tanta piedade à salvação dos humildes” (CASTRO, 1942. p. 72).

[4] Vicente também organizou Confrarias para homens, cuja atuação estava voltada para a assistência aos meninos e idosos pobres, enquanto as mulheres atendiam os doentes. Similar ao das damas, o primeiro regulamento foi aprovado em 1620 (CASTRO, 1942. p. 75-77).

[5] SVP – Coste, Volume IX, p. 202 (versão em espanhol).