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28/02/2017

400 anos do Carisma Vicentino (Pe. González)

O ano de 2017 representa para os ramos da Família Vicentina uma ocasião ímpar para celebrar e refletir sobre a identidade e missão oriundas do carisma que lhes é próprio. Entre as ênfases reflexivas possíveis, Pe. José Antonio González, CM, nos sugere três atitudes: memória agradecida, acentuar a identidade e um futuro profético.

Confira o texto completo:

400 ANOS DO NASCIMENTO DO CARISMA VICENTINO:

TEMPO PARA A MEMÓRIA, A IDENTIDADE E O PROFETISMO[1]

Pe. José Antônio González, CM[2]

INTRODUÇÃO

A história se escreve todos os dias na quase inconsciência de nossos afazeres cotidianos e, por isso, ordinariamente não estamos atentos às suas conquistas ou às suas mediocridades. E é por isso que necessitamos de momentos relevantes que nos ajudem a levantar o olhar, a tomar distância do evidente para que, em uma atitude reflexiva e orante, descubramos a intensidade e o chamado que traz a história construída em comunhão com Deus e no esforço de nossa práxis comum.

A celebração dos 400 anos do nascimento do Carisma vicentino, inaugurada em 25 de janeiro de 2017, abre-se como uma boa oportunidade e, por sua vez como um acontecimento suficientemente significativo para uma pertinente reflexão que, no caso do atual artigo, só tem pretensões de suscitar algumas inquietudes espirituais do mesmo. Dividi os conteúdos do texto em três partes que pretendem refletir três horizontes diferentes, porém, complementares do olhar histórico: o passado (memória), o presente (identidade) e o futuro (profetismo).

1. MEMÓRIA AGRADECIDA

A gratidão nasce ao descobrir a gratuidade do amor de Deus que, por sua vez, é a fonte da lógica do dom na vida. Diante da bondade generosa de um Deus que se encarna na história e permite que a vida divina floresça na existência das pessoas, o ser humano agradece desde seu interior e com sua ação, o dom da graça que o constitui e que, claramente, o transborda. Conhecemos a respeito da gratuidade divina as reiteradas afirmações de Vicente de Paulo que, falando de nossas origens, sempre reiterava a ação generosa e surpreendente da Providência de Deus.

O que agradecer a Deus nestes 400 anos? Tudo! Agradecemos a vida de Vicente e sua abertura ao desígnio misericordioso de Deus em sua existência. Agradecemos a força de um carisma criativo que abriu caminho comunicando consolo aos pobres e esperança à Igreja. Agradecemos a lucidez e a perseverança que, como pessoas e Instituição, temos vivido ante às dificuldades sofridas. Agradecemos o esforço e a entrega generosa de tantos homens e mulheres que, embebidos do espírito vicentino, souberam ser testemunhas credíveis do amor que tudo transforma: mártires, falecidos, enfermos e pessoas idosas. Agradecemos as alegrias interiores nascidas de uma obra bem realizada e as lágrimas silenciosas ante a dureza do amor oblativo.

Agradecemos, também, as grandes obras de caridade como as pequenas conquistas no serviço. Agradecemos o zelo e a expansão missionária, e mesmo as intuições constantes que, como família, fazemos por atualizar nossa herança. Agradecemos os reconhecimentos recebidos sem nenhuma pretensão mas sobretudo, os rostos de alegria e esperança dos pobres, e de todos os homens e mulheres que se sentiram reconhecidos no amor afetivo e efetivo. Agradecemos a chama da caridade que ainda segue viva em nossos corações e os sonhos e esperanças que ainda movem nossos passos.

2. ACENTUAR A IDENTIDADE

Olha-se o passado com agradecimento e o presente com realismo e a partir de convicções. Certamente e com dor, se constata que muitos seres humanos seguem submetidos a viver na pobreza, que os pobres ainda existem e reclamam nosso serviço. No mundo o Carisma Vicentino ainda está vivo e em vigor, segue sendo motivo de entrega para muitas testemunhas que ainda se oferecem com generosidade para escutar a urgência da caridade e comunicar o dom de si, e, por sua vez, é sinal de esperança para muitos necessitados. Hoje somos mais conscientes que somos uma grande família e se tem acentuado com maior clareza o trabalho em comum que isto exige.

Porém, hoje também é evidente que a crise sociocultural e religiosa que vive o mundo afeta de uma forma considerável a vitalidade e renovação do Carisma Vicentino. Há dificuldades vocacionais para a vida ministerial e consagrada, e mesmo para o voluntariado e sua perseverança. As gerações são cada vez mais envelhecidas e, às vezes, a vitalidade carismática tem sido colocada em segundo plano por um continuísmo conservador. Em algumas partes a esperança deu vez ao pessimismo e o trabalho em comum a projetos individuais. Nem sempre os pobres são “nosso peso” e “nossa dor”, e uma certa “burocratização” da caridade faz perder o calor do amor que se enternece no serviço.

Contudo, talvez uma das maiores dificuldades, senão a fundamental, para a vitalidade e vivência do Carisma, é que, fruto de um zelo inapropriado, se desfoca o horizonte do sentido evangélico que deve acompanhar, com sua fonte, toda nossa prática concreta de caridade. É Deus Pai em Cristo Jesus por meio do Espírito que nos chamou a ser mensageiros de sua misericórdia com os pobres. É esta convicção ontológica, este caráter contemplativo o que determina nosso serviço e o que não deixa que os ativismos, a imediatez ou o caráter “executivo” com que realizamos certas obras com os pobres tornem estéreis a força do amor efetivo. Certamente, esta problemática tem estado presente desde as origens mas, hoje em dia, devido às condições secularizadoras de nossa sociedade, marca uma dificuldade importante na hora de explicitar e tornar concreta na vida nossa identidade espiritual e, portanto, os alcances de nosso serviço.

O que devemos acentuar em nosso presente à luz dos 400 anos? Nossa identidade! Nossa identidade se remete à fonte e conteúdo daquilo ou Daquele que nos apaixona. Na vida ordinária, quando alguém se identifica com algo ou com alguém, facilmente expressa esses sentimentos com paixão e convicção; por exemplo, por sua equipe desportiva, suas estrelas musicais ou artísticas, etc. E nós, herdeiros do Carisma Vicentino, sentimos paixão por Cristo como Aquele que dá o sentido à nossa vida e à nossa entrega?

É evidente que não há experiência de Deus se não há intimidade com Jesus Cristo. Uma verdadeira experiência de Deus comporta um seguimento apaixonado pelo Mestre, sentindo-se profundamente seduzidos por Ele, seduzidos por seu projeto, pela utopia do Reino, de tal maneira que vale à pena viver e morrer por Ele. A paixão por Cristo há de ser aquilo que nos faça vibrar de alegria e entusiasmo, que baliza nossa existência a viver em plenitude as lutas cotidianas e assumir desafios cada vez maiores no serviço generoso aos pobres. Dar por suposta esta convicção ou deixá-la à margem dentro de nossa ação é afogar nossa espiritualidade ao vazio abstrato e a nossa ação à insensatez estéril.

3. FUTURO PROFÉTICO

Agradecer, confrontar e acentuar, para reconfigurar e provocar. O futuro nem sempre é claro porque não temos domínio sobre ele. Mesmo assim, podemos olhar o futuro de duas maneiras: com medo por tudo o que ele pode trazer de forma inesperada e fixar-nos ao de sempre para sentirmos segurança, ou olhá-lo com esperança, confiantes em tudo o que, em Deus, podemos intuir e realizar. Creio que a atitude vicentina mais conforme ao carisma vai pelo segundo caminho.

Então, como nos abrirmos confiadamente ao futuro que desperta os 400 anos? Sem medo! Sem medo de reconhecer que, possivelmente é obsoleta nossa práxis pastoral e que necessitamos de uma reconfiguração interior e exterior, sincera e profética. Sem medo, sem lamentar um mundo que já não existe, e encarar com esperança a realidade que se apresenta na atualidade. Sem medo de reconhecer nossa ignorância e deixar-nos iluminar por outros que, como nós, tratam de lutar por um mundo mais justo e fraterno. Sem medo de crer no poder de trabalhar juntos e na vitalidade que gera confrontar nossas seguranças. Sem medo de sentir a vulnerabilidade do ser incompreendido, nem a solidão do horto.

Sem medo, também, de nos abrirmos às novas pobrezas e às novas hermenêuticas de compreensão da pessoa humana e de Deus. Sem medo de mostrar nossa alegria e nossas convicções, sem necessidade de que alguém no-las tenha pedido. Sem medo de ser gratuitos com nosso tempo e capacidades, com nossos bens e nossos sentimentos. Sem medo de confrontar nossas próprias mediocridades, trabalhando para superá-las, porque sabemos que, se estamos abertos à vontade de Deus, é Ele quem sempre guiará nossos passos.

CONCLUSÃO

É claro, então, que, ao celebrar os 400 anos do Carisma Vicentino, não estamos nos referindo somente a um dado positivo e importante mas, para todos que gozamos o privilégio de tê-lo como horizonte de nossa vida e ação, é também uma responsabilidade histórica a reflexão sobre seu ser e sua atualidade. Assim, se impõe o agradecimento a quem é a fonte de nossa vida carismática, a permanência na identidade do Mestre que nos chamou e a abertura, com esperança e sem medo, ao futuro como dom de Deus.

 



[1] Título original em espanhol: “400 años del nacimiento del carisma vicentino:  tiempo para la memoria, la identidad y el profetismo”. Disponível em: <http://cmglobal.org/es/files/2017/02/400-AN%CC%83OS-PARA-LA-MEMORIA-Ton%CC%83o.pdf>. Acesso em: 22 fev. 2017. Tradução: Ir. Terezinha Tortelli e Ir. Raquel de Fátima Colet, Filhas da Caridade - Província de Curitiba.

[2] Presbítero da Congregação da Missão (CM), da Província da Colômbia.