As Manifestações de 1830 à luz do Magnificat

Educação • 15/10/2016

Com Maria, proclamar as maravilhas de Deus:

Uma leitura das Manifestações de 1830 à luz da espiritualidade do Magnificat

 

Ir. Raquel de Fátima Colet, FC

 

A importância de Maria na experiência de fé dos/as cristãos/ãs católicos/as é incontestável. Ao longo da história, foi adquirindo nuances diferenciadas, diretamente influenciada por fatores contextuais, tanto religiosos quanto socioculturais. Ao mesmo tempo em que permite identificar o salutar contributo da devoção mariana para fé cristã, esse caráter contextual ajuda-nos a verificar os excessos e os limites devocionais que podem eclipsar o centro da fé cristã, que o Mistério Pascal de Cristo. A missão de Maria se situa neste horizonte e para ele converge; trata-se de uma relação intrínseca.

Neste sentido, o Concílio Vaticano II levou a uma redescoberta e recolocação da devoção à Nossa Senhora na vida da Igreja, orientando para um retorno aos escritos bíblicos e patrísticos. Esse esforço se encontra sistematizado, sobretudo, no capítulo VIII da Constituição Dogmática Lumen Gentium, intitulado “A Bem-aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja”. A intenção é elementar: voltar às fontes é o caminho de contato com a intenção basilar, com o sentido originário da presença da Mãe de Jesus na vida das primeiras comunidades e de como isso foi sendo elaborado na teologia dos primeiros séculos. Trata-se de um salto qualitativo na devoção marial, contrapondo a reprodução quantitativa de atos devocionais os quais, muitas vezes, desfiguravam o lugar de Maria no projeto salvífico. Além de não contribuir para a maturidade na fé de seus devotos/as, tais compreensões mal colocadas acabaram por reforçar divergências e compreensões equivocadas junto aos/às irmãos/ãs de outras confissões cristãs, e na sociedade secular como um todo. Tendo o diálogo como elemento transversal, o ensino conciliar propõe o justo equilíbrio entre “o falso exagero e a demasiada estreiteza de espírito” na pregação e no culto à Nossa Senhora (LG, n. 67).

É sob esta perspectiva que somos convidados/as a reler as manifestações de Maria à Companhia em 1830, tendo Irmã Catarina Labouré como instrumento para a comunicação de sua mensagem. Partimos desta premissa: não se trata de um evento particular ou destinado a um grupo privilegiado: a visita da Mãe de Deus à Rue du Bac atravessa as paredes da Casa Mãe das Filhas da Caridade, e pede à Companhia, por meio do carisma que lhe é próprio, que seja comunicadora daquilo que Deus tem a dizer por meio de Maria para toda humanidade, especialmente para os/as empobrecidos/as. Da mesma forma, é preciso que olhemos para este evento à luz de seu contexto. Eclesialmente, o século XIX e a primeira metade do século XX enfatizam grandemente a devoção marial, tanto em relação ao culto como à doutrina[1], ao que se soma a força da piedade popular. Ao mesmo tempo em que ornou a espiritualidade mariana com novas referências e práticas devocionais, o período apresenta o limite de não ter favorecido que a amplitude da veneração à Maria fosse acompanhada de igual profundidade. Ou seja, a tensão já sinalizada anteriormente entre quantidade e qualidade. Essas particularidades de linguagens e esquemas representativos precisam ser levadas em conta, não objetivando um juízo de valor sobre a conjuntura do passado, mas para uma oportuna abordagem no presente.

            Com esse crivo crítico, somos levados/as a pensar hoje, em tempos de pluralismo sociocultural, de experiências religiosas fragmentadas e marcadamente subjetivas; em um cenário em que o sagrado se vê cerceado pela voracidade do mercado que transforma a fé em um produto comercializável e extremamente rentável, situação notadamente perceptível no interior do cristianismo; em uma realidade que os pobres continua a nos interpelar, se impõe o desafio: como viver e testemunhar a dimensão mariana de nossa espiritualidade, em coerência com nossa fé e com nosso carisma? Como traduzirmos a mensagem das Aparições em linguagens que ajudem nosso povo a crescer e aprofundar sua fé? Nas pegadas do Concílio, em atenção à Palavra de Deus como elemento normativo de nossa experiência de Deus, um mergulho no texto do Magnificat (Lc 1, 46-55) pode nos ajudar a uma releitura da dimensão mariana de nossa espiritualidade e carisma.

Sabemos que não são muitas as passagens referentes à Maria no Segundo Testamento, mas elas são suficientes para identificar o seu lugar no plano salvífico de Deus, visto que toda sua vida esteve ordenada à de Cristo. O Magnificat se encontra nos relatos da infância de Jesus narrados por Lucas. As palavras que o evangelista coloca nos lábios de Maria são inspiradas no cântico de Ana (1 Samuel 2, 1-10) e em alguns salmos. Narram a predileção de Deus pelo pobre e por Israel, o povo eleito, que se identifica com o pobre; vale lembrar que a comunidade cristã primitiva na qual o texto nasce, se reconhece como o novo Israel (MACKENZIE, 1983. p. 570). A Mãe de Jesus é parte deste povo novo, partilha da vida e da aspiração dos pobres, de modo que seu hino proclama a ação libertadora de Deus em favor deles e expressa a causa que ela mesma, em resposta de fé a este Deus libertador, assume. Ao pôr em sua boca este hino, Lucas

 

[...] quis levantar o véu que cobria seus sentimentos íntimos e o segredo de suas disposições. Maria espera a manifestação do poder e da bondade de Deus na fé, na disponibilidade, humildade, gratidão, júbilo e esperança. Seu cântico é o cântico dos pobres, reunidos de todos os pontos da história bíblica, de todo o Israel verdadeiro e espiritual, herdeiro das bênçãos messiânicas. [...] é a Virgem de coração novo, capacitada pelo Espírito Santo para oferecer a Deus o sim total da aceitação e da fé, em vão esperado do povo eleito” (FIORES, 1993. p. 689).

 

Na lógica lucana que apresenta Jesus como o Caminho, Maria se insere nessa dinâmica peregrinante, consciente da história de sua gente, e canta a presença e a ação de Deus nessa travessia. Como oração bíblica, o Magnificat é “fruto de uma consciência histórica e comunitária, baseada no fator tempo - ação de graças pelo presente, memória laudatória do passado, súplica implícita do porvir” (Ibidem. p. 697). Sob a ação do Espírito, a jovem de Nazaré proclama o hino “da grande revolução da esperança que desinstala da neutralidade”, levando cada um/a a “alistar-se ao lado do Deus de Maria em defesa da causa dos pobres” (Ibidem. p. 686). Seu canto “é a profunda meditação sobre a história” e é “expressão perfeita da espiritualidade da libertação: alegria e ação de graças pela ação de Deus que liberta os oprimidos e humilha os poderosos; solidariedade com os pobres, esperança ativa na transformação do mundo com vistas à aliança” (Ibidem).

É sob este impulso espiritual e missionário que Maria viveu como discípula de Seu Filho, não como privilégio pessoal que a isolou do mundo, mas como dom que a fez assumi-lo a partir de dentro e ao lado daqueles/as que, como ela, vivem da promessa de Javé que atravessa a história. A dimensão gloriosa que lhe é atribuída não significa seu distanciamento da humanidade, pois “ Maria está tão perto de Deus quanto é próxima aos seguidores de Jesus” (MURAD, 2015. p. 585). Sua fé é uma ativa, operante, encarnada.

Percebemos, assim, que a identificação da espiritualidade do Magnificat com o carisma vicentino é imediata: Deus continua a agir com a força de seu braço, exaltando os humildes, enchendo de bens os famintos, socorrendo a Israel (Lc 1, 51-54). É o amor afetivo e efetivo intuído por nossos Fundadores. Na escola de Maria, os/as vicentinos/as buscam prolongar a atitude de serviço disponível e amoroso, tal como ela dedicou a Isabel naquele encontro em que o Magnificat irrompeu de seus lábios. Aqueles/as que são chamados/as a honrar a grande caridade de Jesus Cristo, encontram nela seu modelo e exemplo (Coste X, 113). É nesta concretude testemunhal que se funda a devoção mariana de nossos Fundadores, especialmente em Vicente de Paulo, e, consequentemente, se orienta o projeto de vida daqueles/as que se inspiram em suas vidas e obra. Nossa relação com Maria não pode se resumir à prática de atos devocionais, à exaltação de suas virtudes e prerrogativas; é preciso que orientemos o pulsar de nossa vida e nossos passos no ritmo do Reino que envolveu sua existência. Quem olha para Maria

 

[...] não pode ser cúmplice das injustiças do mundo, nem limitar-se a dirigir-lhe louvores e orações, mas tem que aceitar o Deus dos pobres e comprometer-se no amor político para com eles, a fim de contribuir para a libertação do mundo de todas as injustiças. Em particular, Maria, a mulher escolhida por Deus para realizar a grande obra da encarnação redentora, convida a renunciar aos preconceitos injustos sobre a mulher, os quais fecham-lhe o caminho da participação e de responsabilidade plenas nos diversos setores da vida social e eclesial” (FIORES. op. cit. p. 695).

 

O Magnificat é, igualmente, uma chave de leitura para aprofundarmos a mensagem das manifestações de Nossa Senhora, a Virgem da Medalha Milagrosa, a Catarina Labouré em 1830, acontecimento peculiar para a espiritualidade e devoção mariana para a Companhia. A tarefa de propagar a Medalha Milagrosa como símbolo da presença intercessora de Maria em favor de seus filhos e filhas, não está desconectada da vocação-missão dos filhos e filhas de Luísa de Marillac e Vicente de Paulo que é, em primeira instância, servir Cristo na pessoa dos pobres. A quem foram distribuídas as primeiras medalhas e quem foi que a denominou de “Medalha Milagrosa”? O povo, e o povo pobre, as vítimas da peste que, além de ser relativa à uma enfermidade do corpo, era reflexo de uma sociedade doente, desigual e excludente. Por coerência às suas origens e ao carisma, a Medalha é também um apelo pela justiça social: ao clamor e à dor dos pobres, sufocados pela ganância dos poderosos e abastados, Deus responde por Maria com a cura e a misericórdia. Aos inúmeros milagres testemunhados historicamente, os quais residem no desígnio amoroso do Mistério de Deus, se somam os necessários milagres cotidianos da caridade operante, da solidariedade ativa, crítica, transformadora.

A Medalha Milagrosa é uma linguagem simbólica acessível aos pobres e que os recorda que o Deus libertador cantado por Maria no Magnificat continua em travessia com eles. Nas palavras de R. Laurentin, ela é “tradução plástica de uma realidade de fé. É uma Bíblia ilustrada, Bíblia dos pobres”, cujo valor iconográfico é, simultaneamente, “simples, bíblico e essencial” (LAURENTIN, 1981. p. 154). É um instrumento precioso para ajudar nosso povo a alimentar sua fé, a aprofundar sua mistagogia, encarnar sua espiritualidade e mover suas existências pessoais e comunitárias na busca da justiça e da paz. Como cantado por Maria, a promessa de Deus “a Abraão e aos nossos pais” perdura para sempre. Somos nós hoje, ao mesmo tempo, herdeiros e instrumentos dessa promessa, chamados/as a proclamar com palavras, atitudes e ações, com a Mãe de Deus e como ela, as maravilhas que o Senhor continua a realizar em favor de seu povo.

 

Referências:

BÍBLIA. Nova Bíblia Pastoral. São Paulo: Paulus, 2014.

CONCÍLIO VATICANO II. Compêndio do Vaticano II. Constituições, decretos e

declarações. Petrópolis: Vozes, 1968.

FIORES, S. Maria. In: FIORES, S.; GOFFI, T. Dicionário de Espiritualidade. São Paulo: Paulus, 1993. p. 683-698 (verbete).

MCKENZIE, J. Dicionário Bíblico. ed. 9ª. São Paulo: Paulus, 2005.

MURAD, A. Maria. In: PASSOS, J. D.; SANCHEZ, W. L. Dicionário do Concílio Vaticano II. São Paulo: Paulinas/Paulus, 2015. p. 584-588 (verbete).

VV. AA. Las Apariciones de la Virgen María a Santa Catalina Labouré. Salamanca: CEME, 1981.



[1] Temos neste período, por exemplo, a proclamação de dois dos quatro dogmas marianos - a Imaculada Conceição (1958) e a Assunção (1950) - além de várias aparições, algumas das quais reconhecidas oficialmente pela Igreja, entre elas, a de 1830.